Modelo de jogo: jogar bonito é jogar bem?

Uma imagem e dois pensamentos distintos sobre futebol. Imagem: Torcedores.com
Por Rodrygo Nascimento
FutebolNews

Cresce cada vez mais o interesse popular por análises de partidas e jogadores, filosofia de jogo, estudo de diferentes escolas de futebol, entre outras técnicas futebolísticas. Pep Guardiola, grande pensador do futebol moderno nos últimos 10 anos, ensinou que para ganhar pode sim adotar uma postura ofensiva, agressiva, tendo posse e controle do jogo, e ao mesmo tempo se defender muito bem. Com isto, surgiram outras maneiras de jogar, aperfeiçoando soluções para neutralizar este tipo de jogo que ficou caracterizado como "pass and move" ou toca e se desloca. Por vezes, este estilo de jogo mais reativo e conservador saiu vencedor contra o estilo mais "plástico" de jogar, conquistou títulos e quebrou hegemonia. Contudo, a pergunta que feita é: jogar bonito é jogar bem?

Para começar bem, primeiro é preciso entender que jogar bem é conseguir aplicar seus conceitos dentro da partida, com domínio no momento de ataque e defesa. Tendo total controle nessas transições. Antes de Pep Guardiola, já existia outors adeptos ao estilo de jogo com mais posse de bola. Começou no inicio do século XX com o ex-treinador do Ajax Jack Reynolds. Foi passando por adaptações com o River Plate da década de 40, nos anos 50 com a Hungria (que não levantou taça de Copa do Mundo), Racing na década de 60, até chegar na década de 70, com o Rinus Michels, este o creditado pela criação do futebol total. Ex jogador de futebol, bebeu da fonte do seu ex-treinador Jack Reynolds. Aperfeiçoou o estilo de jogo e o deu o nome de "Futebol Total", seu inicio foi no Ajax dominante na Europa e tinha em seu elenco Johan Cruyff. Após sucesso no time holândes, assumiu a Holanda na Copa de 1974 e chamou atenção do mundo pela forma de jogar. Em 1978 mesmo sucesso, porém em ambos os anos foi vice campeão do mundo. Johan Cruyff começa sua carreira de treinador no Ajax em meados da década de 80 e saiu no final, e é no Barcelona que ele consegue dar o salto na carreira com a conquista da antiga Copa dos Campeões da Europa de 1992, justamente com o estilo de futebol que aprendera com seu ex-treinador e mentor Rinus Michels. E na equipe tinha o treinador mais brilhante citado no inicio deste texto. Isso mostra a longevidade e adaptação deste modelo de jogo que é pratica desde os primórdios do futebol.

Entretanto não era apenas no Velho Continente que havia este estilo de jogo com toque de bola e imposição técnica. No Brasil desde à Copa de 1970 já era dada a amostra do talento e de como poderia dominar um adversário com a posse. O Flamengo de 1981 campeão do mundo montado por Cláudio Coutinho e aperfeiçoado com Paulo César Carpegiani, o Internacional do professor Rubens Minelli, Palmeiras, Fluminense, Atlético-MG e São Paulo de Têle Santana, até a década de 90 e meados de 2000 com Vanderlei Luxemburgo. São escolas próximas, com estilo de jogos aperfeiçoados com o passar dos anos. Tendo a posse de bola e o futebol mais plástico como principal espetáculo e além disso extremamente campeões. Porém, não é só "o gosto por ter a bola" a unica semelhança dos estilos, eram equipes fisicamente fortes, que conseguiam impor seu ritmo com velocidade, não apenas uma posse de bola ineficiente no campo defensivo, e sim, com ultrapassagens, dobra na marcação e pressão pós perda.

Enquanto ao estilo mais "feio" de jogar, mais pragmático é o mais visto em territórios brasileiros. Algumas equipes menores dos campeonatos europeus adotam a maneira de atuar, por ter um orçamento menor e um elenco não tão qualificado. A postura reativa, por vezes, é confundida a retranca, algo que é totalmente inaceitável. O modo de espera do adversário no campo de defesa não significa necessariamente uma retranca, tudo é avaliado de como é a postura de cada atleta em bloco baixo ou médio. Mesma coisa quando é dito que jogar com 3 volantes ou 5 meias é uma retranca, isso varia muito com a maneira adotada pela equipe no jogo, temporada ou campeonato especifico. Apesar de não ser um jeito tão cativante de jogar ou que chame menos atenção, atuar desta maneira já conseguiu quebrar sequencia e levar treinadores a outro patamar. No Brasil, um dos pioneiros nesta maneira de atuar foi Zagallo, logo em seguida Ênio Andrade campeão brasileiro com Grêmio, Coritiba e Internacional, Felipão super campeão por Grêmio e Palmeiras. Na Europa temos José Mourinho bi-campeão da Europa com Inter de Milão e Porto, muito conhecido por montar defesas eficientes que levam poucos gols, equipes com forte sistema de marcação e intensidade na pressão ao portador da bola. Outros técnicos conseguiram aperfeiçoar essa maneira de atuar, Jurgen Klopp, Abelardo, Simeone, todos esses são treinadores em que suas equipes são muito mais reativas. Atuam com alta intensidade, velocidade e contra ataques mortais.

Essa maneira de pensar o jogo nem sempre é a mais bem vista pelo público, porém, é bastante eficaz quando bem treinada e executada na partida. Um time vertical com ataque pelos flancos e ligações diretas, não é o caso de todos os treinadores citados à cima. A eficiência desta maneira de jogo trás título e resultados com mais rapidez. Recentemente Simeone tentou adotar outro estilo de jogo ao Atlético de Madrid, mas com as derrotas precisou retornar ao antigo estilo mais conservador. Felipão, atual campeão brasileiro, foi extremamente criticado por não apresentar um estilo de jogo mais plástico, entretanto o resultado veio. Caso parecido com Cuca no mesmo Palmeiras e Atlético-MG, Cruzeiro com Mano Menezes. Lógico que são casos específicos e contextos peculiares, mas mostra o quão pode ser eficaz um estilo de jogo mais direto, pragmático. Se for levar a nível europeu tem exemplos passados como Claudio Ranieri com Leicester campeão da Premier League na temporada 15/16 e Roberto Di Matteo à frente do Chelsea que literalmente dava a bola ao adversário para ter uma oportunidade de contra atacar. Este é um desenho dentro da forma reativa de atuar, mesmo que não seja a "maneira correta de interpretar".

Enfim, as duas maneiras de pensar e enxergar futebol são distintas, porém, com o mesmo objetivo. A vitória. As visões distintas ao longo da história do futebol é que leva a evolução do esporte, a evolução das atletas e clubes. E a pergunta feita no inicio do texto: "jogar bonito é jogar bem?" está provado que, não. Como foi dito, jogar bem é dominar todas as fases do jogo, ter controle no ataque e defesa. Mesmo que seja dito que o modo reativo não seja, é algo subjetivo. A equipe consegue controlar na parte defensiva e eficaz quando ataca, ou seja, tem o controle e domínio nos momentos da partida, inclusive na transição.

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