A Laranja Mecânica marcou época e modificou a maneira de se enxergar o futebol
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| A "Laranja Mecânica" de 1974 fez história no futebol mundial (foto: Reprodução de Internet) |
Por: Nuno Krause
FutebolNews
Uma das seleções mais famosas da história sem dúvidas é a Holanda da Copa de 1974. Comandada por Johan Cruyff, a Laranja Mecânica, como era chamada, ficou conhecida pelo seu estilo de jogo extremamente envolvente, e por massacrar a maioria dos seus adversários naquela copa (incluindo o Brasil, na segunda fase, pelo placar de 2 a 0). Porém, a seleção não consagrou o seu desempenho com o título da competição, já que na final sucumbiu à fria seleção alemã, que jogava em casa.
Ainda assim, a história dessa seleção é algo que enche os olhos de qualquer aficionado por futebol. Comandada por Rinus Michels, a Holanda se utilizou da base do Ajax, que, treinado pelo próprio Michels, conquistou três Ligas dos Campeões da UEFA consecutivas (1971,1972,1973) e espantou o mundo com o chamado Futebol Total. Praticado também pela seleção holandesa em 74, o Futebol Total se baseava na arte da rotatividade em campo. Isso deu origem ao outro apelido daquela seleção: O Carrossel Holandês, pois os jogadores não guardavam posições, o que confundia seus adversários, e encantava a todos que assistiam àquele time jogar.
O time
A seleção de Rinus Michels possuía em Johan Cruyff, astro do Ajax, seu principal referencial técnico, mas o time não se resumia apenas a ele. Com um excelente sistema defensivo, que trabalhava numa linha de quatro (Wim Suurbier, Arie Haan, Wim Rijsbergen e Ruud Krol), a seleção sofreu apenas 3 gols durante a Copa, sendo dois deles na final. No meio, a Holanda tinha o seu grande trunfo. Com um sistema de jogo baseado na posse de bola, os seus meias (Hanegen, Jansen, Neeskens e Cruyff) se aplicavam muito na marcação para roubar a bola para si, e mantê-la a partir de toda a qualidade técnica que possuíam esses jogadores. E, para completar, o ataque com Rep e Resenbrink, que eram também essenciais nas roubadas de bolas, além de mortais quando próximos ao gol.
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| Cruyff era o principal jogador daquela seleçãoe considerado por muitos como "imarcável" (foto: reprodução de internet) |
Taticamente, aquele time era formado teoricamente num 4-4-2, ou um 4-3-3, se considerarmos que Cruyff era tanto meia como atacante, mas as variações durante o jogo eram tantas que os adversários tinham dificuldades para prever as ações daquela seleção. Haan atuava de zagueiro e volante, e Cruyff era visto frequentemente na área para finalizar as jogadas, fazendo com que Rep e Resenbrink abrissem pelas pontas. Suurbier e Krol apoiavam constantemente, se transformando muitas vezes mais em alas do que laterais, e a aproximação entre todos os jogadores facilitava muito a troca de passes. Em resumo, um time dificílimo de ser marcado, que pressionava seus adversários ao extremo e trabalhava sempre em função do gol (foram 17 gols em 7 jogos naquela Copa).
A campanha na Copa
A Holanda chegou à Copa de 74 com as expectativas sobre o time extremamente elevadas. O futebol holandês estava em alta, após o Ajax ter conquistado a Liga dos Campeões em 1973, batendo a Juventus na final. Além disso, possuía o melhor jogador do planeta na época, Johan Cruyff, líder do time do Ajax, e símbolo do futebol praticado pela seleção holandesa, por possuir uma ótima noção tática em campo que deixava os seus adversários perdidos quando tentavam marcá-lo. Assim, apesar de não ter conseguido chegar à final da Eurocopa em 1972, a Laranja Mecânica chegava à Copa do Mundo como a grande favorita ao título.
No primeiro jogo, contra o Uruguai, Cruyff e companhia já mostraram ao mundo porque aquele time marcaria época na história do futebol. Um massacre técnico, tático, e físico, como foi descrito por todos na época. O meia-atacante da seleção uruguaia, Pedro Rocha, anos após a fatídica partida, declarou que durante o jogo sentiu vontade de chamar pela mãe, pois toda vez que pegava na bola apareciam três “laranjinhas” de vez e a tomavam dele. O volante do Uruguai, Montero Castillo, responsável por tentar parar Cruyff, quando perguntado pelo próprio Pedro Rocha porque não conseguia segurar o camisa 14, disse: “Como? Corri atrás do 14 o campo todo e ele não parou! Não dava nem pra dar porrada!”.
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| Luís Pereira foi expulso naquele jogo entre Brasil e Holanda. O zagueiro fez inúmeras faltas violentas e foi um dos símbolos daquela violenta partida (foto: Reprodução de Internet) |
A primeira fase ainda teve um empate em 0 a 0 com a Suécia, e um 4 a 1 sobre a Bulgária, e a classificação para a segunda fase se concretizou. Na fase seguinte, as seleções dividiram-se em dois grupos de quatro, nos quais os líderes de cada grupo se enfrentariam na final. A Holanda teria como adversários então a Argentina, a Alemanha Oriental e o Brasil. Após massacrar os hermanos com um 4 a 0, e vencer com facilidade a Alemanha Oriental pelo placar de 2 a 0, o Brasil, tricampeão mundial, era o grande adversário do grupo, e a vaga para a final seria decidida naquele jogo. A partida ficou conhecida por ser uma das mais violentas da história do futebol, pois, o Brasil, atordoado por não conseguir encaixar a marcação, tentou resolver na porrada. O resultado do jogo: 2 a 0 com dois gols de Cruyff, e a Laranja Mecânica passava para a final, na qual enfrentaria os donos da casa, a Alemanha Ocidental.
A final
Apesar de ter encantado a todos com a sua maneira de jogar futebol, a Holanda enfrentaria na final o adversário mais difícil. A Alemanha (naquela época Alemanha Ocidental), conhecida historicamente por frear grandes times, jogava em casa e tinha todo o apoio da torcida. Ainda assim, quem abriu o placar foi Neeskens, de pênalti, com apenas um minuto de jogo. O silêncio no estádio podia indicar que aquele seria um dia triste para os alemães, porém, ainda no primeiro tempo, Paul Breitner e Gerd Müller viraram a partida, obrigando a seleção holandesa a correr atrás do placar, coisa que ainda não havia acontecido naquela Copa.
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| A Alemanha Ocidental de Beckenbauer parou a Laranja Mecânica de Cruyff, e levou o título jogando em casa (foto: Reprodução de Internet) |
O segundo tempo foi difícil para a Holanda. A eficiência da seleção alemã era notória, e Cruyff, a grande esperança dos holandeses, esbarrava na forte marcação de Berti Vogts, não conseguindo reger o Carrossel Holandês nas jogadas ofensivas. A atuação do goleiro alemão Sepp Maier e a liderança do mito Franz Beckenbauer garantiram a vitória alemã por 2 a 1, e aquela Holanda de 1974, que encantou a todos e mudou a maneira de se enxergar o futebol, voltou pra casa sem o título mundial. Em 1978, a Holanda chegaria novamente à final, porém, sem Cruyff e Michels, o futebol apresentado não era nem de longe parecido com o da Laranja Mecânica, e os holandeses perderiam para a Argentina de Mário Kempes por 3 a 1.
De qualquer forma, é inegável que aquela seleção de 1974 da Holanda foi uma das melhores de todas as copas, e de fato é absurdo que não tenham conquistado a Copa do Mundo. Porém, Cruyff e companhia serão lembrados para sempre por todos aqueles que sabem o quanto foi importante para a história do futebol essa seleção e tudo o que ela representou.
Formação principal da Laranja Mecânica: Jongbloed; Suurbier, Krol, Rijsbergen e Haan; Neeskens, Hanegen e Jansen; Rep, Cruyff e Resenbrink. Técnico: Rinus Michels




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